Este artigo reúne as 16 doenças mais comuns que afetam os equinos, organizadas por sistema do organismo.
Em cada uma delas, colocamos: causas, sinais clínicos, como se trata e a parte que mais importa para quem gerencia um plantel: o que dá para prevenir.
Nada aqui substitui o médico veterinário.
O objetivo é fornecer um recurso útil para você proprietário, ajudando a reconhecer as principais doenças em equinos e a melhorar o cuidado com seus animais.
Tabela de referência rápida das 16 doenças em equinos

Doenças respiratórias em equinos
O pulmão dos equinos comporta até 55 litros de ar, cerca de nove vezes a capacidade do pulmão humano.
Cocheira fechada, maravalha empoeirada e feno mofado formam a combinação que mais gera doenças em equinos de caráter respiratório crônico no Brasil.

As três doenças em equinos abaixo são as mais frequentes:
1. Influenza Equina
A influenza equina, conhecida também como gripe equina é uma infecção viral altamente contagiosa que afeta o trato respiratório dos equinos, causada pelo vírus Influenza A subtipo H3N8.
É a doença respiratória infecciosa de maior circulação em plantéis com trânsito de animais, e a mais rápida de todas as 16 doenças em equinos deste artigo: o período de incubação fica entre 1 e 3 dias.
A transmissão acontece pelo ar. Um animal tossindo lança partículas virais que percorrem 30 a 50 metros, o que contamina diversos outros animais.
O vírus também viaja em objetos e pessoas, como cabresto, balde, cocho, escova, a roupa de quem trocou de baia sem lavar as mãos.
O grupo de maior risco é o animal jovem, entre 1 e 5 anos, com histórico de trânsito para provas, leilões e exposições.
Sinais clínicos
O quadro clássico começa pela febre, e ela aparece antes de qualquer sinal respiratório:
- Febre entre 39 °C e 41 °C, geralmente o primeiro e único sinal nas primeiras 24 a 48 horas;
- Tosse seca, alta e persistente, que costuma piorar com movimentação e pode durar semanas após o fim da febre;
- Secreção nasal serosa (aquosa e transparente), que se torna purulenta quando há infecção bacteriana secundária;
- Apatia e queda de apetite;
- Aumento dos linfonodos submandibulares (caroços endurecidos no espaço entre os dois ossos da mandíbula);
- Dores musculares, com o animal relutante em se movimentar;
- Intolerância ao exercício, que persiste bem depois da recuperação aparente.

Tratamento
Repouso: A regra prática é uma semana de descanso para cada dia de febre, com mínimo de três semanas. Os tecidos que revestem a traqueia e os brônquios levam cerca de 21 dias para se regenerar. Enquanto isso não acontece, a via aérea fica desprotegida.
Isolamento imediato: O animal com febre sai do convívio na hora, com material de manejo exclusivo, tudo separado.
Suporte: Anti-inflamatório para controlar a febre, sob prescrição. Água limpa à vontade, feno ou capim verde para reduzir irritação da via aérea, e ambiente ventilado.
O maior erro no tratamento é voltar o animal ao trabalho cedo demais.
Cavalo que retorna com a via aérea ainda em recuperação é o que evolui para pneumonia, para tosse crônica que se arrasta por meses, ou para asma equina anos depois.
Prevenção
Vacinação: Reforço anual, e semestral em animais de esporte com trânsito frequente. O protocolo inicial em animais nunca vacinados exige duas doses com intervalo de 3 a 6 semanas, seguidas de reforço em 6 meses. Potros de éguas vacinadas começam a partir dos 6 meses, quando a imunidade do colostro já caiu.
O atestado válido de vacinação contra influenza equina é exigido para emissão de GTA em boa parte dos estados e para entrada em eventos, como leilões, provas, exposições, vaquejadas.
Quarentena: 21 dias para todo animal que chega, incluindo o que está voltando de prova. Baia isolada, aferição diária de temperatura, material de manejo exclusivo.
Biosseguridade de rotina: Material individual por animal, higienização de veículo de transporte, e restrição de circulação de visitantes entre baias.

2. Pneumonia equina
A pneumonia em equinos é a inflamação do tecido pulmonar. Pode ser causada por infecções bacterianas, virais ou fúngicas.
Em equinos, ela raramente aparece sozinha: costuma ser a segunda coisa a acontecer, depois de algo ter comprometido a defesa da via aérea primeiro.
Os fatores de risco incluem estresse, transporte acima de 6 horas, condições ambientais precárias e outras doenças em equinos do trato respiratório já instaladas.
Sinais clínicos
- Febre persistente, que pode oscilar ao longo do dia;
- Tosse produtiva, de som mais úmido e abafado que a tosse seca da influenza;
- Secreção nasal purulenta, com frequência de uma narina só;
- Respiração curta e acelerada, com aumento do esforço abdominal;
- Apatia e queda de apetite;
- Intolerância ao exercício e recuperação lenta depois do trabalho;
- Perda de peso, nos quadros que se arrastam;
- Nos potros, febre discreta, respiração rápida e crescimento abaixo do esperado, muitas vezes sem tosse.
Tratamento
Anti-inflamatório e fluidoterapia: para controlar febre e manter hidratação.
Ambiente: Baia ventilada, sem poeira, feno molhado e água limpa à vontade. Nada de trabalho até liberação veterinária.
Casos graves: Drenagem torácica quando há acúmulo de líquido no pulmão, e internação em centro de referência.
O ponto que mais gera recaída é interromper o antibiótico quando o animal melhora. A melhora clínica vem semanas antes da resolução da lesão pulmonar. Suspender cedo devolve o cavalo direto para a segunda rodada, agora com bactéria mais resistente.

Prevenção
Manejo de transporte: Viagens acima de 6 horas com parada a cada 4 horas, cabeça solta o suficiente para o animal abaixar, ventilação no veículo de transporte e água oferecida nas paradas. Evitar embarcar animal que acabou de sair de quadro respiratório.
Ambiente: Ventilação cruzada nos galpões, cama seca, feno de boa qualidade e sem mofo, controle de poeira nos corredores.
Em potros: colostro de qualidade nas primeiras horas de vida, piquetes com sombra e sem poeira excessiva, evitar superlotação de lotes de potros, e em haras com histórico de Rhodococcus, ultrassom torácico de rastreamento conforme protocolo do médico veterinário.
Temperatura como rotina: Aferir a temperatura retal dos animais em observação, uma vez ao dia, É o método mais barato de pegar qualquer quadro respiratório antes que ele se instale.
3. Asma Equina (DPOC)
A DPOC, também conhecida como asma equina, é uma condição crônica que afeta os pulmões dos equinos, especialmente aqueles expostos a poeira, mofo e alérgenos.
É a única das três doenças respiratórias deste artigo que não tem agente infeccioso: o cavalo não pegou de ninguém, e não vai passar para ninguém. Ele reagiu ao ar que respira todo dia.
Sinais clínicos
- Tosse crônica, que não cede com antibiótico e retorna sempre que o animal entra na baia ou recebe feno;
- Esforço expiratório visível, o cavalo precisa fazer força para expirar, num movimento em duas etapas do abdome;
- Narinas dilatadas e frequência respiratória aumentada em repouso;
- Secreção nasal esbranquiçada;
- Intolerância ao exercício e recuperação lenta após o trabalho;
- Queda de desempenho sem causa identificável;
- Melhora espontânea quando o animal fica dias a pasto, e piora ao voltar para a baia.

Tratamento
Mudança ambiental, a base de tudo:
- Molhar ou vaporizar o feno: antes de fornecer. Imersão de 10 a 30 minutos em água reduz drasticamente as partículas respiráveis. Alternativa melhor: substituir por feno ensilado (haylage) ou capim verde;
- Trocar a cama: por substrato de baixa poeira, maravalha de boa qualidade e peneirada, ou papel picado. Retirar palha;
- Nunca varrer o corredor nem manipular feno com os animais nas baias;
Medicamento, sob prescrição:
- Corticoide inalatório via máscara específica, que é a via preferencial por atuar direto no pulmão com menos efeito sistêmico. Importante em animal com risco de laminite, já que corticoide sistêmico pode desencadear o quadro;
- Broncodilatador para alívio da crise, sem função curativa;
- Corticoide sistêmico nos quadros graves e por período curto.
Prevenção
Asma equina não tem vacina. A prevenção é de manejo, e as mesmas medidas que tratam também previnem:
Feno de qualidade, armazenado seco e ventilado: Fardo guardado em galpão úmido cria fungo mesmo quando entrou bom;
Depósito de feno separado do galpão dos animais: Feno estocado acima ou ao lado das baias contamina o ar continuamente;
Piquete como padrão: baia como exceção. Quanto mais horas ao ar livre, menor a exposição acumulada;
Rotina de limpeza com os animais fora das baias;
Investigar toda tosse persistente: Asma equina leve, tratada cedo com correção ambiental, não evolui. A mesma asma ignorada por dois anos vira remodelamento irreversível;
Doenças digestivas em equinos
O trato digestivo dos equinos tem cerca de 30 metros de comprimento e adoece com facilidade: infecções, obstruções, úlceras e deslocamentos aparecem com frequência.
O sistema digestivo do cavalo é desproporcional ao que ele consegue processar. Estômago pequeno, intestino grosso enorme, e incapacidade de vomitar.
Qualquer erro de manejo alimentar aparece rápido, e é por isso que este grupo de doenças em equinos responde pela maior parte das emergências veterinárias na criação.

4. Cólica Equina
A cólica equina é um termo geral que se refere a dor abdominal de várias origens, incluindo gases, impactação, torção intestinal e deslocamento.
É a emergência mais frequente na equinocultura e uma das principais causas de morte.
A anatomia explica a frequência. O intestino grosso do cavalo é enorme, ocupa boa parte do abdome e está preso à parede abdominal em apenas alguns pontos.
O resto fica solto, livre para se deslocar, dobrar ou torcer. Some a isso o estômago pequeno, que comporta de 8 a 15 litros, e a incapacidade absoluta de vomitar: o cavalo tem uma válvula muscular na entrada do estômago que só abre em um sentido. O que entra, só sai por baixo.
Sinais clínicos
- Inquietação, o animal não para quieto na baia;
- Patear o chão repetidamente com os membros anteriores;
- Olhar o próprio flanco, virando a cabeça para o abdome;
- Deitar e levantar seguidamente, sem conseguir se acomodar;
- Rolar, às vezes com violência;
- Sudorese sem esforço físico que justifique;
- Ausência de fezes ou fezes ressecadas em pouca quantidade;
- Recusa de alimento e água;
- Distensão abdominal visível nos quadros gasosos;
- Frequência cardíaca elevada;
- Mucosas alteradas, de coloração escurecida ou arroxeada nos casos graves.

Tratamento
O manejo depende inteiramente da causa:
Clínico: resolve a maioria dos casos com analgésico e antiespasmódico, sondagem nasogástrica para descompressão, fluidoterapia oral ou endovenosa, laxante ou óleo mineral nas compactações, jejum controlado e reintrodução alimentar gradual.
Cirúrgico: indicado em torções, deslocamentos que não se resolvem, encarceramentos e enterólitos. Exige centro cirúrgico equipado e transporte rápido.
Prevenção
Água limpa à vontade, sempre. No frio, água morna aumenta o consumo. Bebedouro sujo é causa silenciosa de compactação;
Volumoso como base da dieta. Mínimo de 1,5% do peso vivo em matéria seca por dia (cerca de 7,5 kg para um cavalo de 500 kg);
Fracionado da alimentação: em pelo menos três refeições diárias, respeitando o volume pequeno do estômago;
Transição alimentar gradual, ao longo de 7 a 10 dias, para qualquer mudança de ração, feno ou pastagem;
Rotina de horários. O trato digestivo do cavalo trabalha por hábito; alteração brusca de horário desregula;
Exame odontológico anual. Dente com ponta gera mastigação incompleta, que gera compactação;
Evitar piquete arenoso com pasto rasteiro. Fornecer volumoso em comedouro elevado do chão nessas áreas;
Não trabalhar o animal logo após a refeição. Aguardar cerca de uma hora.
5. Úlcera Gástrica
Úlcera é uma ferida aberta que se forma no revestimento interno de um órgão (como o estômago ou o intestino) ou na superfície da pele.
A úlcera gástrica está entre as doenças em equinos de maior prevalência, especialmente em animais submetidos a estresse, dietas ricas em grãos e exercício intenso.
O estômago do cavalo produz ácido continuamente, esteja ele comendo ou não. Na natureza, o pastejo quase ininterrupto e a saliva produzida na mastigação tamponam esse ácido o dia todo.
O animal estabulado com uma refeição de concentrado passa horas com o estômago vazio e ácido livre em contato com a mucosa, levando ao dano.
Sinais clínicos
O que mais atrapalha o diagnóstico é que os sinais raramente parecem sinais de doença. Parecem temperamento, birra ou falta de condicionamento:
- Perda de condição corporal ou dificuldade em ganhar peso, sem causa aparente;
- Pelo opaco e sem brilho;
- Seletividade alimentar: o animal come devagar, deixa sobra ou recusa o concentrado;
- Sensibilidade ao toque no flanco e na barriga;
- Mudança de comportamento: animal antes tranquilo que fica arisco, ou o contrário, apático;
- Queda de desempenho e relutância em avançar;
- Episódios recorrentes de cólica leve: principalmente logo após as refeições;
- Bruxismo (ranger de dentes) e salivação excessiva: mais frequentes em potros;
- Deitar mais que o normal ou adotar posturas incomuns.
Nenhum desses sinais é exclusivo de úlcera, e é comum o problema passar meses sendo tratado como questão de “cavalo difícil”.

Tratamento
Omeprazol: em dose terapêutica por 28 dias, seguido de dose de manutenção reduzida enquanto o fator de risco persistir. É o único medicamento com eficácia consistentemente comprovada. Cuidado com formulações manipuladas sem estabilidade garantida, o omeprazol é instável em meio ácido e precisa de proteção entérica adequada para chegar íntegro ao intestino.
Revisão de anti-inflamatórios. Uso prolongado de AINEs é causa direta de úlcera. Se o animal está em tratamento contínuo para artrite ou laminite, isso precisa entrar na conta.
Prevenção
Volumoso à vontade: é a medida isolada mais eficaz. Rede de pastejo lento ajuda a fazer o feno durar sem aumentar a quantidade;
Nunca deixar o animal em jejum acima de 6 horas;
Feno antes do trabalho, sem exceção;
Concentrado fracionado, com limite de 2 kg por refeição;
Reduzir estresse de rotina: baias com contato visual entre animais, horários estáveis, evitar isolamento social;
Planejamento de transporte: viagem é fator de risco conhecido. Feno disponível durante o percurso reduz o impacto;
Doenças musculoesqueléticas em equinos
As duas doenças musculoesqueléticas mais comuns em equinos são a laminite e a artrite.
A laminite está entre as principais causas de eutanásia na espécie; a artrite responde pela maior parte das claudicações crônicas em cavalos de esporte. São as duas doenças em equinos que mais tiram animal de atividade de forma definitiva.
O ponto em comum está na carga. Um cavalo adulto distribui cerca de 500 kg sobre quatro cascos, e quase tudo o que dá errado nessa conta vem de fatores que dependem de manejo: escore corporal, piso de trabalho e intervalo de casqueamento.

6. Laminite
Laminite é uma inflamação dolorosa das lâminas do casco, frequentemente associada a condições metabólicas, sobrecarga de peso ou concussão em superfícies duras.
Nos casos graves, a falange rotaciona ou afunda. É dolorosa, frequentemente irreversível e continua sendo uma das principais causas de eutanásia em equinos.
Para entender por que ela é tão séria, vale entender o que essas lâminas fazem.
O osso do casco não se apoia no chão: ele fica suspenso dentro do estojo, sustentado por cerca de 600 lâminas primárias que se encaixam umas nas outras como velcro, formando uma união de área enorme.
É essa estrutura que segura os 500 kg do animal. Quando ela inflama e perde força de adesão, o osso começa a ceder por dentro do casco, rotaciona para baixo ou afunda em bloco.
Sinais clínicos
- Postura característica: membros anteriores estendidos à frente e posteriores trazidos para baixo do corpo, deslocando o peso para trás para aliviar a pinça dos cascos;
- Relutância em caminhar: com passos curtos e cautelosos, piorando em piso duro e ao fazer curva;
- Pulso digital forte e palpável na região da quartela: em um animal saudável esse pulso é discreto ou imperceptível;
- Casco quente ao toque: especialmente na região da pinça;
- Dor à pressão com pinça de casco: principalmente na ponta da sola;
- Deitar por períodos anormalmente longos: e dificuldade ou recusa em levantar;
- Relutância em erguer um membro: porque apoiar o peso nos outros cascos dói;
- Tremores, sudorese e respiração acelerada: nos quadros de dor intensa;
- Nos casos crônicos: anéis de crescimento na parede do casco (mais espaçados nos talões que na pinça), sola achatada ou abaulada, linha branca alargada;
Tratamento
Laminite é emergência veterinária. O tratamento envolve a remoção da causa subjacente.
Crioterapia: imersão dos cascos e quartelas em gelo nas primeiras horas. É a medida com melhor evidência para prevenir ou reduzir o dano laminar na fase aguda;
Analgesia e anti-inflamatório em protocolo específico;
Suporte mecânico da sola, com almofada, palmilha ou aparato de suporte que transfere carga da parede para a ranilha e a sola;
Radiografia para avaliar posição da falange e orientar o ferrageamento;
Ferrageamento corretivo conduzido por profissional experiente, com acompanhamento radiográfico seriado.
Casos crônicos exigem manejo permanente: ferrageamento em intervalos mais curtos, controle rigoroso de dieta e monitoramento periódico. Muitos animais seguem confortáveis por anos, e alguns retornam ao trabalho leve.
Prevenção
Prevenir laminite é sobretudo controlar metabolismo e peso:
Controle de escore corporal: Obesidade é o fator de risco número um. Crista de pescoço endurecida e depósitos de gordura na base da cauda são sinais de alerta;
Restrição de pastagem rica em carboidrato solúvel: especialmente capim novo, rebrota após chuva e pasto em manhãs de geada.
Transição alimentar gradual: de 7 a 10 dias;
Rastreio metabólico: em animais de risco (obesos, pôneis, e animais acima de 15 anos).
Casqueamento e ferrageamento a cada 45 dias, ajustado ao crescimento individual;
Exercício regular compatível com a condição do animal;
Vigilância do animal com lesão em um membro: o membro oposto sobrecarregado precisa ser checado diariamente.
7. Artrite e Osteoartrite
A artrite é a inflamação da articulação. Quando essa inflamação se torna crônica e passa a destruir a cartilagem de forma progressiva, o quadro recebe o nome de osteoartrite.
Pode ser consequência de trauma, de sobrecarga repetida em animais de esporte, ou de infecção.
As articulações mais afetadas são o boleto, a articulação interfalângica distal (dentro do casco), o carpo (joelho), o jarrete e a articulação intertársica distal. Esta última responsável pelo esparavão, quadro clássico em animais de trabalho.
Sinais clínicos
- Claudicação que piora após o repouso e melhora com o aquecimento: o sinal mais característico. O cavalo sai da baia duro pela manhã e vai soltando ao longo do trabalho;
- Rigidez no início do exercício: com relutância em avançar nos primeiros minutos;
- Aumento de volume articular: com a articulação visivelmente mais cheia que a do membro oposto;
- Calor local ao toque;
- Redução de amplitude de movimento e resistência à flexão;
- Queda de desempenho;
- Mudança de comportamento: o animal que passa a se recusar em determinado exercício muitas vezes está com dor;
- Assimetria muscular: com atrofia no lado que o animal poupa;
- Nos casos crônicos: deformação visível da articulação e claudicação permanente.

Tratamento
Não existe cura. O objetivo é controlar a dor, retardar a progressão e manter o animal funcional pelo maior tempo possível.
Medicamentos, sob prescrição:
AINEs para controle da dor. Uso prolongado exige atenção ao risco de úlcera gástrica e renal;
Condroprotetores: têm efeito lento e cumulativo, servem para segurar a progressão;
Infiltração intra-articular é o recurso mais eficaz para tirar o cavalo de uma crise, com duas ressalvas: corticoide pode desencadear laminite em animal com risco metabólico, e repetições frequentes danificam a cartilagem;
Antibioticoterapia agressiva e lavagem articular, nos casos sépticos.
Prevenção
Manejo de crescimento em potros: dieta balanceada em minerais, evitar ganho de peso acelerado e garantir exercício livre;
Progressão gradual de treino: respeitando adaptação do tecido;
Qualidade e manutenção do piso de trabalho;
Casqueamento e ferrageamento a cada 45 dias: com atenção ao aprumo;
Aquecimento e desaquecimento em toda sessão;
Controle de escore corporal ao longo da vida;
Tratar lesão articular aguda com seriedade: Torção mal resolvida vira osteoartrite três anos depois;
Colostro de qualidade nas primeiras 12 horas de vida: previne artrite séptica em potro;
Exame de claudicação periódico.
Doenças reprodutivas em equinos
As doenças reprodutivas em equinos podem comprometer a fertilidade, reduzir as taxas de prenhez e causar perdas econômicas significativas na criação.

8. Endometrite
A doença reprodutiva mais comum em éguas é a endometrite, inflamação da camada interna do útero e principal causa de subfertilidade na espécie.
Toda égua desenvolve inflamação uterina depois da cobertura ou da inseminação. Isso é normal e até necessário: o processo limpa o útero do excesso de espermatozoides, de bactérias e de resíduos, preparando o ambiente para o embrião.
A égua saudável resolve essa inflamação em até 48 horas, com contrações uterinas que drenam o líquido pela cérvix.
A égua suscetível não resolve. O líquido permanece, a inflamação persiste, e quando o embrião chega, encontra um ambiente hostil que o inviabiliza.
Uma égua com endometrite não fica necessariamente doente: ela come bem, mantém peso e apresenta cio normal. O que ela não faz é emprenhar.
E cada égua que não emprenha consome uma temporada inteira de custo, com taxa de cobertura, mão de obra, alimentação e exames, sem entregar nascimento nenhum.
Sinais clínicos
Na maioria dos casos a égua parece perfeitamente saudável. O que denuncia o problema é o histórico reprodutivo:
- Retorno ao cio: após cobertura, com ciclo encurtado;
- Diagnóstico de gestação negativo: em égua coberta em momento adequado;
- Perda embrionária precoce: com DG positivo aos 14 dias e negativo aos 30;
- Repetição de falhas: ao longo da temporada ou entre temporadas;
- Acúmulo de líquido intrauterino: visível ao ultrassom, antes ou depois da cobertura.
Tratamento
Lavagem uterina: com solução fisiológica estéril, que remove líquido, resíduo inflamatório e bactéria. Realizada nas 24 a 48 horas após a cobertura em éguas suscetíveis.
Ocitocina: para estimular contração uterina e favorecer a drenagem. É o recurso mais usado no manejo da égua suscetível.
Antimicrobiano intrauterino guiado por antibiograma.
Correção cirúrgica: Vulvoplastia fecha parcialmente a comissura vulvar e impede a entrada de ar em éguas com pneumovagina. Procedimento simples, com resultado consistente.
Manejo de cobertura ajustado: Reduzir o número de coberturas por cio, usar inseminação com dose única no momento ótimo, e minimizar intervenções uterinas desnecessárias.

Prevenção
Avaliação reprodutiva pré-temporada: em todo o plantel de matrizes, com atenção redobrada às éguas acima de 12 anos;
Higiene rigorosa na cobertura e na inseminação: lavagem da região perineal e enfaixamento da cauda;
Reduzir número de intervenções: Cada entrada no útero é uma chance de contaminação. Inseminação bem cronometrada em dose única é preferível a múltiplas tentativas;
Correção de conformação perineal antes da temporada, não durante;
Manejo adequado do pós-parto: com acompanhamento da eliminação da placenta;
Respeitar o intervalo pós-parto adequado antes de cobrir novamente;
Controle sanitário do garanhão e do processamento de sêmen;
Escore corporal adequado nas matrizes. Égua magra e égua acima do peso têm fertilidade reduzida.
Doenças neurológicas em equinos
As doenças neurológicas mais comuns em equinos são a mieloencefalite protozoária (EPM), a raiva e a encefalomielite equina.
São doenças em equinos que afetam o sistema nervoso central e alteram o funcionamento do animal por inteiro.
Duas delas, a raiva e encefalomielite, estão entre as doenças em equinos têm notificação obrigatória no Brasil, e a raiva é zoonose, ou seja, pode ser transmitida em seres humanos.

9. Mieloencefalite Protozoária Equina (EPM)
EPM é uma infecção parasitária que afeta o sistema nervoso central dos equinos. Causada pelo protozoário Sarcocystis neurona.
O hospedeiro definitivo é o gambá, e o cavalo se infecta ao ingerir alimento ou água contaminada com fezes do animal.
Os equinos são hospedeiros acidentais e não transmitem a doença.
Sinais clínicos
- Ataxia assimétrica: incoordenação mais evidente de um lado, com o animal cruzando os membros, se apoiando em falso ou tropeçando;
- Atrofia muscular localizada: muitas vezes em um único grupo muscular;
- Fraqueza de trem posterior: com o animal se arrastando ou dificuldade para arrancar;
- Dificuldade em manobras específicas: curva fechada, subir rampa, dar ré, andar em piso irregular;
- Quedas ou quase-quedas;
- Sinais de nervo craniano: quando o tronco encefálico é atingido: desvio de face, pálpebra caída, orelha caída, cabeça inclinada, dificuldade de deglutição, língua flácida;
- Perda de tônus da cauda ou do ânus;
- Mudança de comportamento e queda de desempenho sem explicação;
Tratamento
Antiprotozoários: sob prescrição, por período prolongado, de 28 dias a vários meses conforme o protocolo e a resposta:
Anti-inflamatório: principalmente no início do tratamento. A morte dos parasitas gera resposta inflamatória que pode piorar os sinais nos primeiros dias, um agravamento transitório é esperado e não significa falha no tratamento.
Vitamina E: pela ação antioxidante e de suporte à recuperação do tecido nervoso.
Fisioterapia e retorno gradual ao trabalho: orientados conforme a evolução.

Quanto mais precoce o início do tratamento, melhor. Muitos animais melhoram de forma significativa, e parte volta ao trabalho.
Um cavalo tratado tardiamente pode ficar com déficit permanente e, em casos graves, se tornar inseguro para montaria.
Prevenção
Não existe vacina. A prevenção é integralmente de manejo, e o alvo é o gambá:
Depósito de ração fechado e vedado: com portas que fechem por completo e sem frestas. Ração em tambor com tampa, nunca em saco aberto no chão;
Cochos cobertos ou protegidos: principalmente os de área externa;
Não deixar sobra de alimento exposta durante a noite: que é quando o gambá circula;
Bebedouros limpos e protegidos, com troca frequente da água;
Controle de lixo e resto orgânico na propriedade: lixeira com tampa, sem acúmulo de sobra de comida próximo às instalações;
Manejo do entorno: reduzir abrigo disponível, como pilhas de entulho e madeira encostadas nas construções;
Redução de estresse em períodos de risco: como transporte, competição, desmame. Animal imunocompetente controla a infecção
⚠️ Importante: gambá é animal silvestre protegido por lei. O controle deve ser feito por exclusão e manejo ambiental, nunca por eliminação.
10. Raiva
A raiva é uma infecção viral fatal que afeta o sistema nervoso central dos equinos, transmitida por mordidas de animais infectados, principalmente pelo morcego hematófago Desmodus rotundus em grande parte do território brasileiro.
O cavalo é mordido enquanto dorme, geralmente na região do dorso, da cernelha ou do pescoço, e frequentemente ninguém percebe.
A mordida é pequena, indolor pela ação anestésica da saliva do morcego, e a marca desaparece rápido.
Cães, gatos e animais silvestres também podem transmitir, mas o morcego responde pela maioria dos casos em equinos.
É uma zoonose (pode ser transmitida para seres humanos), e integra a lista de doenças em equinos de notificação obrigatória no Brasil.
O período de incubação é longo e variável, de algumas semanas a vários meses. Isso significa que o animal que adoece hoje pode ter sido mordido há meses, o que torna inútil procurar a mordida.

Sinais clínicos
Qualquer alteração neurológica de evolução rápida deve levantar suspeita. Os sinais mais relatados:
- Mudança súbita de comportamento: animal dócil que fica arisco ou agressivo, ou animal agitado que fica apático;
- Cólica sem causa identificável: que não responde ao tratamento;
- Claudicação ou fraqueza: que começa em um membro e progride;
- Paralisia progressiva de trem posterior: evoluindo para decúbito;
- Dificuldade de deglutição: com o animal tentando beber e não conseguindo;
- Sialorreia (salivação excessiva);
- Prurido intenso: no local da mordida, com o animal se coçando até ferir;
- Vocalização anormal;
- Hiperexcitabilidade a som, luz ou toque;
- Febre, apatia, anorexia;
- Tremores musculares e espasmos;
- Retenção urinária e perda de tônus da cauda.
A evolução é rápida: da manifestação dos primeiros sinais até a morte, tipicamente de 3 a 10 dias.
⚠️ Atenção: por ser zoonose, todo manuseio de animal com sinal neurológico não diagnosticado deve ser feito com equipamento de proteção. Trate como raiva até prova em contrário.
Tratamento
Não há tratamento eficaz após o início dos sintomas, e a eutanásia é geralmente recomendada para prevenir a disseminação.
Prevenção
Vacinação anual: É a única proteção existente e é altamente eficaz. Em regiões de foco de morcego hematófago, é medida obrigatória do ponto de vista prático, independentemente de exigência legal. Protocolo inicial em animais nunca vacinados exige duas doses conforme orientação do fabricante, seguidas de reforço anual. Potros a partir dos 3 a 6 meses.
Controle de morcegos hematófagos: conduzido exclusivamente pelo serviço veterinário oficial. O manejo envolve captura e aplicação de pasta vampiricida, técnica que exige treinamento. Morcego não hematófago é benéfico e protegido, e a eliminação indiscriminada de colônias agrava o problema ao dispersar os animais.
Vedação de instalações: Telamento de aberturas, vedação de forro e de vãos em cocheiras e galpões. Reduz a oportunidade de acesso noturno.
Inspeção diária dos animais: procurando lesões de mordida no dorso, cernelha e pescoço, pequena ferida circular. A presença de mordidas na propriedade é sinal de alerta e motivo de notificação ao serviço oficial.
Identificação de abrigos: próximos à propriedade. Localizada uma colônia, a comunicação ao órgão estadual é o caminho correto.
Vacinação de cães e gatos da propriedade, que fecha outra via de transmissão.
11. Encefalomielite Equina
A encefalomielite equina está entre as doenças em equinos de maior gravidade: é viral e afeta o sistema nervoso central.
O vírus circula entre aves silvestres e mosquitos. O cavalo é hospedeiro terminal ou acidental, se infecta, adoece, mas não transmite adiante.
No Brasil circulam a Encefalomielite Equina do Leste (EEE) e a do Oeste (WEE), ambas de notificação obrigatória.
O vírus do Nilo Ocidental também entrou na lista de vigilância do PNSE (programa nacional de sanidade de equídeos).
A EEE é a mais grave das três. A letalidade em cavalos ultrapassa 80%, e entre os que sobrevivem, a maioria fica com sequela neurológica permanente. A WEE é mais branda, com letalidade em torno de 20% a 40%.
Os casos se concentram no período de maior densidade de mosquitos, no verão e início do outono na maior parte do Brasil, com variação por região. Áreas alagadiças, próximas a mata e com acúmulo de água elevam o risco. É essa sazonalidade que define o momento certo de vacinar.

Sinais clínicos
O quadro evolui em duas fases. A primeira é inespecífica e passa despercebida com facilidade; a segunda é neurológica e dramática.
Fase inicial (1 a 2 dias):
- Febre alta, frequentemente acima de 40 °C;
- Apatia profunda;
- Anorexia.
Fase neurológica:
- Depressão intensa: com o animal de cabeça baixa e sem responder ao ambiente.
- Andar em círculo: sem direção definida;
- Pressionar a cabeça contra a parede: sinal clássico de doença encefálica;
- Cegueira aparente: com o animal esbarrando em objetos;
- Paralisia de músculos faciais: lábio caído, língua flácida, dificuldade de deglutição;
- Hiperexcitabilidade ou agressividade em alguns casos;
- Convulsões;
- Decúbito: com incapacidade de levantar;
- Coma e morte, tipicamente de 2 a 3 dias após o início dos sinais neurológicos.
⚠️ Atenção obrigatória: os sinais são praticamente indistinguíveis dos da raiva. Encefalomielite e raiva se sobrepõem quase por completo, e não há como diferenciar clinicamente com segurança.
Portanto, todo animal com esse quadro deve ser manuseado como suspeita de raiva: com luvas, sem contato com saliva, sem manipulação de boca e faringe, até que o diagnóstico laboratorial diga o contrário.
Tratamento
Não existe tratamento específico. Nenhum antiviral atua sobre esses vírus em equinos, e o manejo é integralmente de suporte:
Fluidoterapia, já que o animal para de beber;
Anticonvulsivante, para controle das crises;
Anti-inflamatório, na tentativa de reduzir o edema cerebral;
Sedação leve, quando há hiperexcitabilidade que coloca o animal em risco de se ferir;
Ambiente escuro, silencioso e acolchoado, para reduzir estímulos e proteger de traumatismo;
Cuidado de enfermagem intensivo em animal em decúbito: mudança de posição, proteção de proeminências ósseas, sondagem alimentar quando indicada.
Animais que sobrevivem frequentemente ficam com déficit permanente: alteração de comportamento, déficit visual, incoordenação.
Prevenção
Vacinação:
- Reforço anual, aplicado antes do período de maior atividade de mosquitos, na maior parte do Brasil, isso significa vacinar na primavera, e não depois que os casos começaram a aparecer na região;
- Em áreas de alta pressão vetorial e clima quente o ano todo, reforço semestral;
- Protocolo inicial em animais nunca vacinados: duas doses com intervalo de 3 a 4 semanas;
- Potros de éguas vacinadas a partir dos 4 a 6 meses;
- Éguas gestantes: reforço no último terço da gestação, para transferência de imunidade pelo colostro;
Controle de vetores:
- Eliminação de água parada: pneus, baldes, calhas entupidas, bebedouros abandonados, latas, lonas com poça;
- Limpeza e troca frequente de bebedouros;
- Drenagem de áreas alagadiças próximas às instalações;
- Telamento de cocheiras;
- Recolher os animais ao entardecer e ao amanhecer: horários de maior atividade dos vetores;
- Ventiladores nas baias: que dificultam o voo do mosquito;
- Repelentes de uso equino: com reaplicação conforme orientação do produto;
- Manejo de esterqueira afastada das instalações e com destinação adequada.
Doenças infecciosas em equinos
As doenças infecciosas de maior impacto na equinocultura brasileira são a anemia infecciosa equina (AIE), o mormo e o tétano. As duas primeiras não têm cura nem vacina, têm notificação obrigatória e o animal positivo é sacrificado por determinação oficial.
Um positivo de AIE ou mormo não afeta só o animal: interdita a propriedade, trava a emissão de GTA e tira o plantel inteiro de leilões, provas e vendas.
O tétano é o oposto, letal em mais de 50% dos casos mesmo com tratamento, e evitável com uma vacina anual.
12. Anemia Infecciosa Equina (AIE)
A AIE é causada por um retrovírus transmitido por mosquitos e moscas que carregam sangue infectado de um animal para outro.
Também é transmitida por material contaminado: agulha reutilizada, material odontológico, esporas, arreios com sangue.
O animal infectado permanece portador por toda a vida, e a maioria não apresenta sinal clínico algum, segue trabalhando, competindo e contaminando.
Sinais clínicos
Quando existem, os sinais variam conforme a forma da doença.
Forma aguda:
- Febre alta: de aparecimento súbito;
- Apatia profunda e perda de apetite;
- Hemorragias na mucosa sublingual;
- Anemia: com mucosas pálidas;
- Edema de membros, região ventral do abdome e bainha ou úbere;
- Sangramento nasal;
- Queda brusca de plaquetas;
- Em casos severos, morte em poucas semanas.
Forma crônica:
- Episódios febris intermitentes: com intervalos de aparente normalidade;
- Emagrecimento progressivo: mesmo com alimentação adequada;
- Anemia persistente e intolerância ao exercício;
- Edema recorrente de membros;
- Pelo opaco e queda de desempenho.
Tratamento
Não existe cura nem vacina. Animal positivo é sacrificado ou mantido em isolamento permanente sob controle oficial, conforme determinação do serviço veterinário estadual.
Notificação obrigatória ao órgão de defesa agropecuária estadual. A AIE integra a lista de doenças de notificação compulsória passíveis de controle oficial em equídeos.
Prevenção
Testagem periódica de todo o plantel;
Exame negativo antes do desembarque: Nenhum animal deve entrar na propriedade sem GTA e atestado negativo recente de AIE. Isso vale para compra, para hospedagem de animais de terceiros, para égua que chega para cobrir e para animal que retorna de outra propriedade.
Quarentena de 21 a 30 dias: para todo animal que chega, em baia isolada e com material de manejo exclusivo.
Material perfurocortante individual e descartável: Uma agulha por animal, sempre. Vale também para materiais que exigem esterilização entre usos.
Controle de vetores: manejo de esterqueira, eliminação de água parada, telamento em maternidade e baias de isolamento, uso de repelentes, e recolhimento dos animais nos horários de maior atividade das moscas.
Distanciamento em relação a áreas de risco: Piquete vizinho a propriedade com histórico de AIE exige atenção redobrada, porque o vetor não respeita cerca.
Documentação organizada e válida: O resultado negativo de AIE segue obrigatório para emissão de GTA, e o exame tem prazo de validade. Exame vencido no dia do embarque inviabiliza a viagem, e nesse caso não existe negociação com o fiscal.

13. Mormo
O mormo é uma doença infecciosa causada pela bactéria Burkholderia mallei.
Esta doença pode afetar equinos, incluindo cavalos, mulas e burros, e também pode ser transmitida a humanos, sendo considerada uma zoonose.
A transmissão entre animais acontece principalmente por via oral, através de água e alimento contaminados por secreção de animal doente. Bebedouro e cocho coletivos são a rota clássica. Também há transmissão por contato direto com secreção nasal e com material de manejo compartilhado, como cabresto, embocadura, balde, escova, veículo de transporte.
O mormo é uma doença altamente contagiosa e pode ser fatal tanto para os animais quanto para os humanos.
Devido à sua gravidade, o mormo integra a lista de doenças em equinos de notificação obrigatória em muitos países, incluindo o Brasil.
Sinais clínicos
O mormo se apresenta em três formas, com frequência combinadas no mesmo animal:
Nasal:
- Secreção nasal purulenta e espessa;
- Úlceras na mucosa nasal que cicatrizam deixando cicatrizes em formato estrelado (o achado mais característico da doença);
- Aumento dos linfonodos submandibulares, que ficam endurecidos e aderidos;
- Ruído respiratório e dificuldade respiratória.
Pulmonar:
- Formação de nódulos no pulmão;
- Tosse;
- Intolerância ao exercício;
- Emagrecimento progressivo.
Cutânea (lamparão ou farcinose):
- Nódulos subcutâneos que ulceram e drenam secreção espessa e oleosa;
- Lesões distribuídas seguindo o trajeto dos vasos linfáticos, geralmente nos membros, formando um cordão endurecido e visível sob a pele;
- Linfangite, com o membro inchado e endurecido;
- Feridas que não cicatrizam com tratamento convencional.
Tratamento
Não há tratamento eficaz para o mormo em equinos, e a política é a eutanásia dos animais infectados para prevenir a disseminação da doença.
Vale explicar o motivo, porque a proibição costuma soar arbitrária: antibiótico reduz os sinais sem eliminar a bactéria. O animal tratado parece curado, volta a circular, participa de eventos… e continua transmitindo.
O tratamento converte um doente identificável em portador invisível, que é exatamente o pior cenário possível. Além disso, expõe quem manipula o animal a uma doença que a pessoa não sabe que está enfrentando.
Prevenção
Exame antes do desembarque: sem exceção;
Quarentena de 21 a 30 dias para todo animal que chega, com baia isolada e material de manejo exclusivo;
Testagem periódica do plantel: conforme orientação do serviço veterinário estadual e do status da propriedade;
Bebedouros e cochos individuais sempre que possível. Onde forem coletivos, limpeza e desinfecção frequentes;
Material de manejo individualizado por animal: cabresto, embocadura, balde, escova;
Desinfecção de veículos de transporte entre viagens, principalmente em transporte compartilhado;
Investigar toda ferida que não cicatriza, secreção nasal purulenta persistente e emagrecimento sem causa. O diagnóstico precoce protege o plantel e protege a equipe.

14. Tétano
O tétano é uma infecção bacteriana causada pela Clostridium tetani, presente no solo e fezes.
O esporo entra por ferimento profundo, pisada em prego, ferida perfurante, castração, umbigo de potro recém-nascido. O cavalo é uma das espécies mais sensíveis à toxina tetânica.
A bactéria não invade o corpo: ela permanece no local e produz uma toxina, a tetanospasmina, que migra pelos nervos até o sistema nervoso central.
O período de incubação vai de 3 dias a 3 semanas, tipicamente de 7 a 14 dias. Quando os sinais aparecem, o ferimento que os causou frequentemente já cicatrizou e ninguém lembra dele.
Sinais clínicos
O quadro é progressivo e razoavelmente característico:
Sinais iniciais:
- Rigidez generalizada: com marcha dura e movimentos travados;
- Dificuldade de abrir a boca: que dá nome à condição popular “mal do queixo travado” ou trismo;
- Dificuldade de mastigar alimentos;
- Prolapso da terceira pálpebra: a membrana branca no canto do olho avança sobre o globo ocular, especialmente quando o animal se assusta. É um dos sinais mais precoces.

Sinais em progressão:
- Orelhas eretas e imóveis, viradas para trás;
- Narinas dilatadas e fixas;
- “Riso sardônico”: pela contração dos músculos faciais que repuxa os lábios;
- Cauda erguida e rígida;
- Postura de “cavalo de pau”: com os quatro membros esticados e afastados;
- Espasmos musculares desencadeados por estímulo: som, luz, toque, movimento repentino. Qualquer estímulo dispara nova crise;
- Sudorese;
- Dificuldade respiratória: pela rigidez dos músculos torácicos;
- Cabeça e pescoço arqueados para trás;
- Morte por parada respiratória.
Um detalhe importante: o animal permanece consciente e lúcido durante todo o processo, o que torna o quadro extremamente sofrido.
Esse é um dos motivos pelos quais a conversa sobre eutanásia humanitária entra cedo no manejo de casos avançados.
Tratamento
O tratamento é longo, caro e de prognóstico reservado.
Soro antitetânico (antitoxina): para neutralizar a toxina ainda circulante. Importante entender a limitação: a antitoxina não atua sobre a toxina que já se ligou ao tecido nervoso. Ela impede o agravamento, não reverte o que já está instalado, daí a urgência de iniciar cedo.
Antibioticoterapia: para eliminar a bactéria produtora no foco.
Limpeza cirúrgica do ferimento: com desbridamento amplo e exposição do tecido ao oxigênio. Localizar a porta de entrada, quando possível, faz diferença.
Sedação e relaxantes musculares: em uso contínuo, para controlar os espasmos.
Ambiente escuro, silencioso e isolado: com o mínimo de manipulação possível. Cada estímulo desencadeia nova crise, e cada crise consome o animal. Tampão auricular e venda são recursos usados com essa finalidade.
Suporte nutricional e hidratação: frequentemente por sonda, já que o animal não consegue comer.
Prevenção
Vacinação:
- Reforço anual em todos os animais, sem exceção;
- Protocolo inicial em animais nunca vacinados: duas doses com intervalo de 3 a 4 semanas, seguidas do reforço anual. Dose única não confere proteção adequada;
- Potros a partir dos 3 a 6 meses, conforme o estado vacinal da mãe;
- Éguas gestantes: reforço no último terço da gestação, entre 30 e 60 dias antes do parto. A imunidade passa ao potro pelo colostro e protege justamente o período do corte de umbigo, que é uma porta de entrada clássica;
Cuidado com ferimentos, mesmo os pequenos;
Procedimentos sempre com cobertura vacinal em dia: castração, procedimento odontológico, cirurgia. Nenhum procedimento eletivo deve ser feito em animal com vacina vencida;
Manejo do umbigo do potro: com antissepsia adequada nas primeiras horas de vida;
Manejo ambiental: retirada de pregos, arames, sucata e restos de construção de piquetes e áreas de circulação. Manutenção de cercas. Piso de baia e corredor sem objetos perfurantes.
Doenças metabólicas em equinos
Os dois quadros abaixo são as causas mais frequentes de laminite e estão entre as doenças em equinos mais subdiagnosticadas, porque o animal afetado não parece doente.
Reconhecer qualquer um deles cedo evita o problema antes que ele apareça.
15. Síndrome Metabólica Equina (SME)
A Síndrome Metabólica Equina é o conjunto de alterações caracterizado por resistência à insulina, obesidade e alto risco de laminite.
A insulina é o hormônio que faz o açúcar do sangue entrar nas células. Na resistência à insulina, as células param de responder direito, e o organismo compensa produzindo cada vez mais insulina para conseguir o mesmo efeito.
O resultado é um animal circulando com níveis cronicamente altos de insulina, quadro chamado de hiperinsulinemia.
A insulina alta, por si só, danifica as lâminas do casco. Não é o excesso de peso que causa a laminite endocrinopática, embora ele contribua. É a insulina.
Atinge principalmente pôneis, e cavalos mantidos com dieta energética acima da necessidade real de trabalho.
Sinais clínicos
- Escore corporal elevado: com dificuldade de perder peso mesmo com restrição alimentar;
- Crista de pescoço endurecida e espessada: que perde a mobilidade lateral. É o sinal mais característico, e dá para avaliar com a mão;
- Depósitos de gordura em pontos específicos: base da cauda, região supraorbital (acima dos olhos), bainha nos machos, úbere nas éguas, atrás da escápula;
- Gordura irregular e mal distribuída: que persiste mesmo em animal que aparenta ter emagrecido;
- Episódios recorrentes de laminite leve: sensibilidade que aparece e some, marcha encurtada em piso duro, relutância em curva fechada;
- Anéis de crescimento irregulares e divergentes na parede do casco: indicando episódios laminíticos passados que ninguém identificou na época;
- Sola achatada e linha branca alargada;
- Alterações reprodutivas em éguas: ciclos irregulares, dificuldade de emprenhar;
- Letargia e intolerância ao exercício;
- Sede e urina aumentadas, em alguns casos.
Tratamento
Não existe cura. O manejo é permanente e a dieta é o tratamento principal.
Restrição calórica controlada:
- Redução gradual, nunca abrupta. Restrição severa em cavalo obeso pode causar hiperlipemia, quadro grave e potencialmente fatal, especialmente em pôneis e éguas;
- Fornecimento de feno em torno de 1,5% do peso vivo em matéria seca por dia, ajustado conforme a evolução;
- Alimentador lento: que faz a mesma quantidade de feno durar mais horas e evita o jejum prolongado, que traz outro problema: úlcera gástrica. Confira o nosso artigo completo sobre alimentação lenta para equinos.

Redução drástica de carboidrato não estrutural:
- Retirada total de concentrado convencional. Ração de cavalo em trabalho é incompatível com SME;
- Feno com baixo teor de açúcar e amido. Onde houver dúvida sobre o teor, a imersão do feno em água por 30 a 60 minutos reduz parte dos açúcares solúveis;
- Suplementação mineral e vitamínica em ração balanceada de baixa caloria, para não faltar nutrientes durante a restrição.
Controle de acesso a pasto:
- Restrição de horário de piquete, com atenção especial ao final da tarde, quando o teor de açúcar na planta é mais alto;
- Focinheira de pastejo, recurso eficaz e frequentemente subutilizado no Brasil;
- Evitar por completo capim jovem, rebrota após chuva e pastagem após geada. São os períodos de maior concentração de açúcar;
- Piquete de restrição, com pastagem madura e baixa.
Exercício progressivo, que é o que mais melhora a sensibilidade à insulina. Só pode ser implantado se não houver laminite ativa;
Medicamento, em casos selecionados e sob prescrição;
Manejo de casco permanente, com casqueamento e ferrageamento em intervalos regulares e acompanhamento radiográfico quando houver histórico de laminite.
Prevenção
Avaliação periódica de escore corporal: de todo o plantel, com registro. Ganho de peso progressivo é gradual e passa despercebido para quem vê o animal todo dia;
Alimentar conforme o trabalho real: não conforme a intenção de trabalho. Cavalo que sai duas vezes por semana não precisa de ração de animal em prova;
Volumoso como base: com concentrado apenas quando o gasto energético justificar;
Manejo de pastagem: com controle de acesso em períodos de risco;
Exercício regular: mesmo leve;
Rastreio metabólico em animais de perfil de risco: pôneis, animais acima de 10 anos com escore corporal elevado;
Investigar todo episódio de sensibilidade de casco, mesmo o que passou sozinho em dois dias.
16. Disfunção da Pars Intermedia da Pituitária (PPID / Doença de Cushing)
A Doença de Cushing, ou hiperadrenocorticismo, é causada por um tumor na glândula pituitária, glândula localizada na base do cérebro que comanda boa parte do sistema hormonal do organismo.
Leva a um desequilíbrio hormonal amplo, que afeta pelo, imunidade, metabolismo de açúcar, musculatura e reprodução.
Afeta principalmente cavalos acima de 15 anos, e a prevalência sobe conforme o animal envelhece. Com o aumento da longevidade dos equinos, virou diagnóstico cada vez mais frequente em haras brasileiros.
Sinais clínicos
- Hirsutismo: pelo longo, grosso, ondulado e que não cai na muda. Nos casos avançados, o cavalo fica peludo em pleno verão. É o sinal mais específico da doença, e sua presença isolada já justifica investigação;
- Perda de massa muscular: principalmente no dorso e na garupa, com aparecimento da linha do dorso e proeminência dos ossos da anca;
- Abdome pendular: pela combinação de perda muscular abdominal e redistribuição de gordura;
- Sudorese excessiva: muitas vezes desproporcional à temperatura ambiente;
- Aumento de sede e de urina: com cama mais molhada que o normal;
- Depósitos anormais de gordura, como na SME: crista de pescoço e base da cauda;
- Laminite crônica ou recorrente: sem causa alimentar;
- Letargia e queda de desempenho;
- Infecções recorrentes e cicatrização lenta: abscesso de casco de repetição, infecção de pele, problema dentário, sinusite. A imunossupressão é uma das consequências mais custosas do quadro;
- Carga parasitária elevada: mesmo com vermifugação em dia;
- Alterações reprodutivas: infertilidade, ciclos irregulares, lactação inadequada em éguas;
- Cegueira ou alterações neurológicas em casos avançados: pela compressão de estruturas vizinhas.
Tratamento
A PPID não tem cura, mas tem controle eficaz.
Medicamentos repõe a ação da dopamina que os neurônios degenerados deixaram de exercer, restaurando o freio sobre a hipófise. A resposta costuma ser evidente: pelo volta a cair, o animal recupera disposição, a sudorese diminui e as infecções recorrentes cedem.
Manejo nutricional: Dieta com baixo teor de açúcar e amido, principalmente se houver resistência à insulina associada. Em animal que perdeu peso e massa muscular, a energia deve vir de óleo e fibra fermentável, não de amido.
Prevenção
Não existe prevenção para a PPID. A degeneração é um processo ligado ao envelhecimento.
O que existe, e faz diferença real, é detecção precoce:
Exame veterinário anual em todo animal acima de 12 anos: com avaliação clínica direcionada;
Dosagem de ACTH a partir dos 15 anos, ou antes se houver qualquer sinal sugestivo;
Observar o animal que demora a soltar o pelo, ou que solta de forma incompleta, merece investigação;
Investigar toda laminite em cavalo idoso do ponto de vista hormonal, não apenas alimentar;
Investigar abscesso de casco de repetição, infecção recorrente e cicatrização lenta em animal mais velho;
Registrar escore corporal e massa muscular ao longo do tempo. A perda muscular da PPID é gradual e invisível para quem convive com o animal diariamente;
Conclusão
Nenhuma das doenças em equinos acima se diagnostica sozinho. Todas exigem um médico veterinário no local para melhor atender o seu caso.
O que este artigo é outra coisa: a capacidade de reconhecer cedo, agir rápido e, principalmente, de chegar na consulta com informação em vez de suposição.

Um médico veterinário que recebe “acho que ele já teve isso ano passado” trabalha às cegas.
O mesmo médico veterinário, diante do histórico completo do animal, com datas de vacina, episódios anteriores, medicações usadas e resultados de exames, fecha o diagnóstico em uma fração do tempo.
A diferença entre os dois cenários não está no conhecimento técnico de quem cria. Está no registro.
Chega de administrar no achismo.
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Referências
Top 30 Most Common Equine Diseases. Disponível em: MadBarn
Diagnosing and treating common equine diseases. Disponível em: Vettimes
Enfermidades dos Cavalos – Armen Thomassian

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